
Cazal fez a passagem ontem à tarde. Foi o preço que a sexta 13 cobrou dos nossos sonhos e esperanças. Despediu-se prematuramente, mas de forma anunciada. Mesmo que ele não suspeitasse, sua situação já estava definida desde as primeiras horas da madrugada.
Não foi uma batida de carro, apesar do porre que havia tomado. Não foi suicídio, apesar de alguém ter tomado parte na decisão desse ser seu último dia. Fiquem tranqüilos, também não foi assassinato. Ninguém a não ser dois poucos chegados sofreram. Sua morte não deu manchete no jornal ou protesto na Candelária. O drama de sua vida apenas cabia numa colher de sopa.
Cazal, nascido Carlos Alberto Amarillo, 16 anos, era carioca e feliz. Viveu seus últimos 6 meses como poucos viveriam uma vida.
Ensinou mais do que aprendeu. Correspondeu mais do que foi amado. Aproveitou as viagens, conheceu pessoas, não teve medo de passar vergonha em público. Bebeu leite condensado direto da lata, dividiu o último chiclete pra ganhar um beijo e arrotou na fila do cinema. Fez uma lista dos lugares mais “deschavados” da cidade e esperou por cada um desses encontros – mesmo que poucos tenham, de fato, acontecido.
Foi fiel aos seus princípios e aos da sociedade. Tripudiou sem ferir, voltou a freqüentar a missa aos domigos e não desgrudava do seu mp3. Ouvia Royksopp, Franz e Thom York. Já tinha idade pra ir à shows desacompanhado do pai. Fez dessas lugares seus primeiros campos de batalha. Bebeu, fumou e beijou. Dançou até suar as costas da camisa. Voltou a pé só pra levar uma menina até a portaria do prédio dela. A mãe nunca entendeu quando ele dizia: “Pô, amor de gente grande, mãe!”. Batia a porta do quarto.
Chorava silenciosamente uma única lágrima ouvindo músicas em espaços abertos. Pensava sempre em se destacar e, ao mesmo tempo, desejava sumir na multidão. Fez um piercing e guardava na última folha do caderno um desenho do que seria sua primeira tatuagem.
Não deu tempo né, Cazal?
Seus lugares preferidos eram a vista da Baía de Guanabara à noite, os bancos nos jardins do Museu da República e as calçadas das sorveterias. Não tinha carro, apenas uma bicicleta, um cordão de prata e um boxer chamado Bigorna.
Acabou vítima de seus melhores sentimentos. Mesmo traído, perdoou. Mesmo doído, deu uma palavra de carinho: “- Passei aqui pra você ver que raiva não é uma boa palavra pro que estou sentindo”. Mais não disse.
Vai com Deus, amigo. A gente se esbarra qualquer dia desses.










